terça-feira, 25 de junho de 2013

incêndio na cozinha ou a origem misteriosa das pegadas cor de rosa



Querida Júlia, tu não sabes, mas ontem peguei fogo à cozinha onde a tua mãe estava a cozinhar o nosso jantar. Desculpa. Eu posso explicar. 

Quis pintar os rodapés do teu quarto de cor de rosa, exactamente a mesma cor (código NCS S 1015-Y90R) daquele rebordo que divide o teu quarto em dois, mas com tinta de esmalte. É uma cor que vem da paleta "Northern Light", são cores boas para funcionar bem quando o espectro luminoso se desloca para o azul, garantindo cores bonitas e calorosas mesmo em dias cinzentos e... pronto, isto se calhar não interessa. Mas dizia eu, quis pintar os rodapés e pintei, com muito cuidado. Foi a tua mãe que colou as fitas e tudo, a parte mais chata, mas não podia pintar porque gosta demasiado do cheiro do solvente da tinta de esmalte e lemos num site que cheirar solventes é mau para o bebé.

Acabei de pintar e tudo parecia correr bem, mas quando fui lavar o rolinho de esponja no lavatório da cozinha cometi um erro, um erro pequenino. Estou habituado a tintas de água, percebes? Saem com muita facilidade do rolo e das mãos, com água, limpam-se com uma esponja e tudo. Mas qual não é o meu espanto quando a minha mão ficou coberta de tinta rosa pegajosa que não saía nem por nada? E que a tinta se começou a agarrar ao lavatório e à torneira... tentei ser discreto e não assustar a tua mãe que vigiava os tachos.

E peguei numa garrafa de solvente industrial que tinha guardado no armário, uma sobra de quando injectei espuma de poliuretano na caixilharia das janelas isolantes e precisei de limpar as minhas mãos que inadvertidamente entraram em contacto com o produto quando as luvas de latex se colaram e rasgaram.

Pronto, admito que não foi muito boa ideia, mas enchi o lavatório com água e despejei solvente lá para dentro. Estava consciente que aquele solvente é mesmo muito forte, que tem muitos avisos cor de laranja na embalagem e que o senhor da drogaria mo vendeu como se fosse uma arma sem número de série, tive de lhe dizer que acetona não servia, que tinha de ser algo muito mais forte e exibir-lhe os fios de espuma de poliuretano colados às minhas mãos. Mas pensei que diluído em água fosse mais ameno e não me causasse as mesmas reacções na pele que da primeira vez que o usei. E achei que com água quente aquilo limpasse melhor, só que o esquentador está mesmo por cima do lavatório da cozinha. Então e não é que aquilo explodiu e irrompeu em chamas? 

Querida Júlia, é que parecia um assador de chouriço gigante, não estás bem a ver... Tenho os antebraços chamuscados, mas só me apercebi disso uma hora depois quando a situação voltou ao normal. O solvente na água continuou a emitir vapores e incendiou-se nas chamas do esquentador. Todo o lavatório parecia um lago de fogo, uma coisa mesmo à Michael Bay! Mas o papá teve muitos reflexos, que é para veres. Abri o armário e tirei de lá uma toalha de mesa e atirei-a para dentro do lavatório para apagar as chamas. Não reparei que a toalha era inflamável também, admito. Nem que a garrafa de solvente estava no balcão ao lado do lavatório e que um pequeno rasto de solvente (mas uma gotas só, juro) foi o suficiente para as chamas chegarem à garrafa, tipo rastilho, para uma segunda explosão ainda mais espectacular que a primeira. Tenho pena de não ter tido a presença de espírito para tirar uma fotografia ou filmar e mostrar-te, mas pronto, paciência.

A tua mãe por esta altura (isto foram segundos) já tinha fugido contigo na barriga para a sala, depois de eu lhe ter dito para desligar o gás do fogão. Gritei-lhe para me trazer um cobertor. E ela trouxe-me um cobertor, mas foi logo trazer aquele cobertor que eu até gosto bastante, o laranja, mas que ela detesta e que está sempre a dizer para eu deitar fora. Mas não discuti com ela, só para veres como o papá coloca a tua vida acima de considerações estéticas ou decorativas. Atirei o cobertor para cima do lavatório e do balcão e fiz tap tap tap com ele por todo lado, porque as chamas estavam mesmo teimosas. O fogo apagou-se, naturalmente e voltei-me para a tua mãe e disse-lhe "vês? está tudo bem, sei o que estou a fazer" porque ela tem um bocado tendência de sofrer dos nervos e exagera. Abrimos as janelas todas, e o exaustor, desligamos gás e interruptores de luz e estive lá uma meia hora com a ventoinha portátil de gravidez da mãe, a ver se dissipava o solvente.

Nisto, não sei como, espalharam-se salpicos do rolo de tinta cor de rosa por toda a cozinha, especialmente no chão que é de pedra preta porosa e que custa mesmo a limpar. A tua mãe diz que fui eu que atirei o rolo ao ar num gesto talvez indicativo de estar assustado, mas não foi, mantive sempre a calma. Também verifiquei a existência de pegadas cor de rosa pelo chão, do lavatório para a janela que abri, sem me lembrar de o ter feito. Suponho que tenha sido eu, sabes? A tua mãe obrigou-me a limpar o chão e tive de o esfregar pelo menos meia hora, com aquela parte verde da esponja.

Foi depois disso, já na casa de banho, um pouco tonto do cheiro a solvente, que dei conta da tinta nos antebraços chamuscados e em madeixas de cabelo pegajosas e coladas, também chamuscadas. Estive outra meia hora a esfregar-me, o que foi bastante incómodo porque os meus braços estavam com um escaldão do passeio de BTT de 45 quilómetros que fiz este fim de semana e o solvente já me tinha queimado parcialmente a pele. A tua mãe bem me avisou: mete protector solar. Mas eu não segui os conselhos da tua mãe e vê só o que sucedeu? Tudo sujo, atraso no jantar, confusões, explosões etc.

Depois da situação regularizada, jantámos na sala. Ainda tentei fazer uma piada sobre a Sónia Brazão e que isto poderia ser bom para a carreira da tua mãe, no sentido de a projectar mediaticamente, mas ela não achou graça. E não tem graça nenhuma, realmente.

Isto explica as ténues pegadas rosa no chão preto da cozinha que provavelmente ainda lá estarão quando conseguires ler este texto. A maior parte saiu (expliquei à tua mãe hoje) e só se vê mesmo com a luz do dia e com um bocado de má vontade. À noite não se vê, mas o chão é meio poroso e não dá mesmo para tirar aquilo.

Bem, só queria que soubesses que está tudo sobre controlo e que estamos perfeitamente preparados para te ter quando nasceres, porque é com a prática e as experiências como esta que percebemos aquilo de que as crianças são capazes se não forem vigiadas. Ainda sugeri à mamã despejar um pouco de solvente no balde da esfregona quando a empregada vier a casa e fugirmos durante umas horas, deixando o número dos bombeiros num post it, em cima do balcão, assim como quem não quer a coisa, mas a tua mãe não concorda e diz que vai meter os produtos industriais inflamáveis longe do alcance do pai e que a próxima compra é uma manta anti-fogos para a cozinha. Preferia usar o tapete da casa de banho, aquele de que não gosto nada e que a tua mãe escolheu, mas pelos vistos há uma "manta anti-fogos" especificamente para estes propósitos.

10 comentários:

fantasias disse...

Muito bom mesmo, claro está, depois do perigo passado, porque deve ter sido cá um destes sustos!!

Boas historias o Papá tem para contar à filhota...

tata disse...

que coisa maravilhosa carago!

Isa disse...

pqp, Tolas... ainda bem que vcs estão todos bem, o relato está engraçado :) mas assustei-me aqui, um caneco... Bjo aos 3

angela disse...

Vou tomar as bombas da asma, ri-me tanto, mas tanto...que não consigo respirar direito.

M D Roque disse...

Querida Júlia
Ainda não nasceste e já és o personagem central duma história que dava um filme "daqueles" do ScyFy.
Adoro as "Lettres de Victor Hugo à Léopoldine" versão papá da Ju, e acho que assim que souberes ler e ele te permitir estas leituras, vais adorar também. Porta-te bem , não dês muitos pontapés nem azia à mãe, e mesmo que não gostes do quarto, diz que é lindo, que os "cotas" ficam todos babados, e daqui a uns aninhos fazes dele o que quiseres. Beijinho da velha D

Mariam disse...

A Júlia ainda vai dar os primeiros passinhos sobre pegadas cor-de-rosa, pouco antes de o papá a ensinar a dançar o rock n' roll com os pés debaixo dos dela.

<3 <3 <3

jj.amarante disse...

Há bastante tempo que não me ria tanto. Felizmente ainda não me tinha lembrado de deitar diluente em água quente. Agora que li isto lembrei-me que o álcool mentolado que se deita em água quente para fazer inalações ferve instantâneamente. A volatilidade do diluente foi acelerada pela água quente. Vivendo e aprendendo.

Tolan disse...

:))))

margas disse...

Ahahha! Ler isto logo de manhã é outra coisa! Ri-me tanto!!!! Mas penso que o que é preciso de reter é que tudo está bem quando acaba bem!

Roger disse...

Que aventura do camandro.
Felizmente acabou tudo em bem. Mas confesso que também me ri com algumas partes da descrição :P