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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Como garantir que a nossa prole é do Benfica?


É óbvio que não podemos deixar entregue ao acaso uma coisa tão importante como o nosso filho ser do Benfica.
Pai, porque é que o Jesus inventa sempre contra o FCP?

 O problema é complexo. O meu sogro é do Sporting. Enfim, dizer que “é do Sporting” é um eufemismo para “ayatolah de alvalade”. As três filhas, incluindo a Plaft, são sócias desde que nasceram e ele leva-as a todos os jogos  - mesmo os desta época -  embrulhadas em burkas de cachecóis verde e branco. 

As irmãs mais novas da Plaft, ao conviverem comigo nos jantares de família, lembram-me um pouco o Edward Norton neonazi do América Proibida, reconvertido pelo convívio forçado com o negro na lavandaria da prisão. Descobrem que afinal os “lampiões” são seres humanos e não demónios, como lhes ensinaram toda a vida. Chegam mesmo a passar-me o pão à mesa e a sorrir-me, já se aproximando fisicamente para me cumprimentarem, em vez de me acenarem à distância, com um pau esticado na outra mão. Em todo o caso, para elas, ir ao estádio ver os jogos é sobretudo um ritual familiar a manter. E um ritual que eu respeito e admiro.

A Plaft achou que seria “giro” dar a novidade ao pai oferecendo-lhe uma camisolinha do Sporting tamanho bebé. Uma ideia engraçada, não fosse o caso de eu ser do Benfica e de ter ideias de que o meu filho seja do Benfica também. Eu é que lhe vou mudar as fraldas, dormir mal e aturar-lhe a adolescência. Vai-me custar uma pipa de massa e preocupações. Vai monopolizar os seios da minha mulher e vomitar-me em cima a seguir. Este ano vou perder o meu escritório modernista anos 60 que vai ser decorado com bichos e cores alegres, um berço do IKEA e um aparador fofinho, coisas a que eu não tive direito, tendo passado anos naquele escritório depressivo sem que ninguém se preocupasse com a sua decoração.  Não tinha eu direito a um cabide com mochos e esquilos também?

Pai, estive a ver o Sporting a jogar. Aquela defesa comete mais erros infantis que a minha creche...

Então o mínimo que peço é que venha venha comigo comer a porra de uma sandes de coirato e beber uma mini nos arrabaldes do estádio da Luz, assim que fizer dois ou três anos. Manifestei as minhas reservas e a Plaft compreendeu. As irmãs também me compreenderam e solidarizaram-se comigo. Contudo, não podem fazer nada. Fui avisado de que o mais provável era o meu sogro inscreve-lo(a) como sócio(a) do Sporting assim que nascesse e que até o podia fazer em segredo, sendo a verdade revelada apenas na sua maioridade, como uma espécie de twist dramático semelhante à descoberta de que é adoptado. 

Quanto a isso, não me oponho. Até acredito que grande parte dos actuais sócios do Sporting sejam oriundos deste tipo de filiação filantrópica e só isso pode explicar que tenha mais de dois mil sócios. Eu não quero que o Sporting desapareça. Se calhar eu próprio sou sócio do Sporting e não sei. Você, caro leitor, pode ser sócio do Sporting. É melhor ir verificar isso antes de se candidatar à presidência do Benfica e de outros descobrirem por si. Ia ter muito que explicar.

Pai, a mãe diz que a violência é errada, mas se apanharmos o Pedro Proença no playcenter do Colombo tu seguras nele e eu dou-lhe com a roca.


De facto, eu não ligo muito a essas coisas do futebol, não sou fundamentalista, o miúdo é livre de escolher, desde que escolha o Benfica. Como garantir isso? Simples: o truque é fazê-lo acreditar que tem escolha, para a fidelidade ser maior. Devemos deixar margem para uma ilusão de livre arbítrio, ao avaliar ele próprio os três grandes e deixá-lo escolher. A escolha do Sporting é obviamente descartada uma vez mesmo uma criança de um ano de idade identifica erros graves nos padrões defensivos dos bonequinhos de verde e branco que se agitam de forma caótica e desagradável na televisão. É apenas preciso cuidado para que não escolha o FCP. Como evitar que escolha o FCP? Simples: o Benfica será igual a sandes de coirato e minis (ou seja o que for que as crianças bebem quando vão ao futebol, talvez  lambretas, não sei, deve depender do peso delas). As vitórias deixarão o pai bem disposto, generoso, carinhoso e disponível para lhe dar atenção. 

A derrota, por outro lado, levará a um choque eléctrico moderado que pode passar pelo facto do pai amuar e ficar mal disposto, sem vontade de brincar com ele.  Esta táctica foi amplamente usada por mim com a Plaft. Ela, apenas com um ano de terapia comigo, já fica aliviada quando o Benfica ganha e preocupada quando o Benfica perde. É um começo de empatia clubística e por isso, posso assegurar que funciona!