É óbvio que não podemos deixar entregue ao acaso uma coisa tão importante como o nosso filho ser do Benfica.
Pai, porque é que o Jesus inventa sempre contra o FCP?
O problema é complexo. O meu sogro é do Sporting. Enfim,
dizer que “é do Sporting” é um eufemismo para “ayatolah de alvalade”. As três
filhas, incluindo a Plaft, são sócias desde que nasceram e ele leva-as a todos
os jogos - mesmo os desta época - embrulhadas em burkas de cachecóis verde e
branco.
As irmãs mais novas da Plaft, ao conviverem comigo nos jantares de
família, lembram-me um pouco o Edward Norton neonazi do América Proibida, reconvertido pelo convívio
forçado com o negro na lavandaria da prisão. Descobrem que afinal os “lampiões”
são seres humanos e não demónios, como lhes ensinaram toda a vida. Chegam mesmo
a passar-me o pão à mesa e a sorrir-me, já se aproximando fisicamente para me
cumprimentarem, em vez de me acenarem à distância, com um pau esticado na outra
mão. Em todo o caso, para elas, ir ao estádio ver os jogos é sobretudo um ritual
familiar a manter. E um ritual que eu respeito e admiro.
A Plaft achou que seria “giro” dar a novidade ao pai oferecendo-lhe uma camisolinha do Sporting tamanho bebé. Uma
ideia engraçada, não fosse o caso de eu ser do Benfica e de ter ideias de que o
meu filho seja do Benfica também. Eu é que lhe vou mudar as fraldas, dormir mal
e aturar-lhe a adolescência. Vai-me custar uma pipa de massa e preocupações. Vai
monopolizar os seios da minha mulher e vomitar-me em cima a seguir. Este ano
vou perder o meu escritório modernista anos 60 que vai ser decorado com
bichos e cores alegres, um berço do IKEA e um aparador fofinho, coisas a que eu
não tive direito, tendo passado anos naquele escritório depressivo sem que
ninguém se preocupasse com a sua decoração. Não tinha eu direito a um cabide com mochos e esquilos também?
Pai, estive a ver o Sporting a jogar. Aquela defesa comete mais erros infantis que a minha creche...
Então o mínimo que peço é que venha venha comigo comer a porra de
uma sandes de coirato e beber uma mini nos arrabaldes do estádio da Luz, assim
que fizer dois ou três anos. Manifestei as minhas reservas e a Plaft compreendeu. As
irmãs também me compreenderam e solidarizaram-se comigo. Contudo, não podem fazer nada. Fui avisado de
que o mais provável era o meu sogro inscreve-lo(a) como sócio(a) do Sporting assim
que nascesse e que até o podia fazer em segredo, sendo a verdade revelada
apenas na sua maioridade, como uma espécie de twist dramático semelhante à
descoberta de que é adoptado.
Quanto a isso, não me oponho. Até acredito que grande parte dos actuais sócios do Sporting
sejam oriundos deste tipo de filiação filantrópica e só isso pode explicar que
tenha mais de dois mil sócios. Eu não quero que o Sporting desapareça. Se calhar eu próprio sou sócio do Sporting e não
sei. Você, caro leitor, pode ser sócio do Sporting. É melhor ir verificar isso
antes de se candidatar à presidência do Benfica e de outros descobrirem por si. Ia ter muito que explicar.
Pai, a mãe diz que a violência é errada, mas se apanharmos o Pedro Proença no playcenter do Colombo tu seguras nele e eu dou-lhe com a roca.
De facto, eu não ligo muito a essas coisas do futebol, não
sou fundamentalista, o miúdo é livre de escolher, desde que escolha o Benfica.
Como garantir isso? Simples: o truque é fazê-lo acreditar que tem escolha, para
a fidelidade ser maior. Devemos deixar margem para uma ilusão de livre
arbítrio, ao avaliar ele próprio os três grandes e deixá-lo escolher. A escolha do Sporting é
obviamente descartada uma vez mesmo uma criança de um ano de idade identifica erros graves nos padrões defensivos dos bonequinhos de verde e branco que se agitam de forma caótica e desagradável na televisão. É apenas preciso cuidado para que não
escolha o FCP. Como evitar que escolha o FCP?
Simples: o Benfica será igual a sandes de coirato e minis (ou seja o que for
que as crianças bebem quando vão ao futebol, talvez lambretas, não sei, deve depender do peso
delas). As vitórias deixarão o pai bem disposto, generoso, carinhoso e disponível para lhe dar atenção.
A derrota, por outro lado, levará a um choque eléctrico moderado
que pode passar pelo facto do pai amuar e ficar mal disposto, sem vontade de brincar com ele. Esta táctica foi amplamente usada por mim com
a Plaft. Ela, apenas com um ano de terapia comigo, já fica aliviada quando o Benfica ganha e preocupada quando o Benfica perde. É um começo de empatia clubística e por isso,
posso assegurar que funciona!
