Uma das coisas fantásticas de se ser pai é poder realizar experiências como esta nos próprios filhos:
Ainda não discuti o assunto das experiências com a Plaft porque já sei que vai discordar e apresentar objecções. Não me espanta. A ciência, desde de que existe, encontrou sempre resistências nos poderes instituídos que procuram, pela perpetuação da ignorância, manipular as mentes das massas. Há também, hoje em dia, uma maior consciencialização do sofrimento infligido em experiências com cobaias, ratinhos e bebés. Contudo, basta de hipocrisias. Todos filhos são cobaias dos pais O Pai Natal, que mais não é do que uma experiência controlada em que se procura condicionar o comportamento da criança para que seja bom de acordo com a normal moral vigente e que facilite a nossa própria tarefa educativa, recorrendo ao estímulo psicológico positivo na forma de presentes na árvore (ou pelo estímulo reciprocamente negativo da ausência de presentes na árvore)? Os exemplos de experiências são intermináveis, nem me ponham a falar do sistema educativo ou da filiação clubística, por exemplo. A não ser que deixemos a criança viver em liberdade num bosque para que seja adoptada por um casal de ursos ou uma matilha de lobos (como era suposto e desejável - não contei à Plaft mas os meus passeios de BTT pela tapada de Mafra mais não são do que scouting de um bom day care) estaremos sempre a fazer experiências com ela. A diferença, comigo, é que as experiências serão relativamente inofensivas e controladas. Pelo menos, eu saberei o que estou a fazer e o condicionamento terá sempre em vista dotar a minha filha de qualidades que lhe permitam sobreviver melhor e ser mais feliz.
Dois exemplos:
Experiência nº1 -Objectivo: Não fazer birras de não querer andar
Já todos vimos a situação: bebé chora, birra monumental, finca o pé, num local público e recusa-se a andar. Os pais, envergonhados, depois de desistirem de o tentar arrastar pelo braço e atrair ainda mais a atenção e olhares reprovadores sobre si, fazem normalmente a experiência de lhe dizer 'olha que ficas aí... olha a mãe está a ir embora... o pai está a ir embora, ficas aí, adeus...' O resultado nem sempre é eficaz e o problema é que a inconsistência da ameaça é muito difícil de obter, isto é, os pais não podem cumprir a ameaça por medo de perder efectivamente o filho e voltam para trás se ele se recusa a andar, prejudicando futuras tentativas de usar o mesmo método. A experiência consiste em pedir a alguém que tenha um aspecto mais ou menos de confiança (exemplo, outro pai que esteja a ver a cena e tenha empatia connosco) que simule o rapto da criança, colocando-a na bagageira de um carro (apenas durante breves momentos +-30 segundos) assim que desaparecemos do campo de visão. Depois os pais deverão abrir a bagageira do carro e dizer algo como "desta vez encontramos-te, mas para a próxima podes ficar aí dentro para sempre". É de esperar que ao fim de algumas simulações, a criança evite fazer birras e se mantenha bem perto dos pais sempre que estes se afastem.
Experiência nº2 - Ser do Benfica
Inspirei-me num caso real que me contaram e que considero muito bem pensado. Passa por, sempre que brincarmos juntos a algo minimamente competitivo, sermos alternadamente do Benfica e do Sporting. Quando ela for do Benfica e eu do Sporting, ela ganha sempre, pois farei de propósito para perder. Vou também queixar-me e chorar e, sobretudo, acusá-la sempre de batota. Quando for a vez dela ser do Sporting e eu do Benfica, serei impiedoso e vou-lhe impor copiosas derrotas, nem que tenha de treinar músicas do Justin Bieber no Just Dance na Wii às escondidas, mas terei bom ganhar e serei magnânimo.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
sexta-feira, 28 de junho de 2013
contagem final
Pedaço a pedaço, a casa vai-se reconfigurando e nasce um quarto de bebé no meio dela. Paredes pintadas, rodapés, candeeiros, roupeiros, cómodas, berço, prateleiras... Assemelha-se um pouco a uma organização de evento. Momentos antes do evento ninguém acredita que vai estar pronto a tempo e a azáfama é total. Andámos meses a "preparar" o quarto, mas evidentemente com um ritmo irregular porque tudo parecia um pouco irreal, como o Mundial de Futebol no Brasil. Sim, sim, precisamos de construir acessos, arrasar favelas, maquilhar e vestir os pobres e montar o berço, mas faltam três meses, é imenso tempo. Agora não faltam "meses", já começamos a contar semanas. O umbigo da Plaft está praticamente na horizontal na barriga esticada como um tambor. Hoje apanhei-a sentada na grande cadeira de verga suspensa por mola em forma de ovo (uma cena que ela quis) a olhar para o quarto novo, com um sorriso embevecido, a imaginar-se dali por umas semanas. Uma coisa é certa, podem estar 35 graus, mas dou comigo a pensar no Natal mais especial que vou ter desde que cresci e deixei de acreditar em magia.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
bebé mau
... bath?... um produto made in whatever parte da globalização. Desculpa Júlia, juro que não sabíamos que este produto era para este tipo de bebés em específico.
terça-feira, 25 de junho de 2013
incêndio na cozinha ou a origem misteriosa das pegadas cor de rosa
Querida Júlia, tu não sabes, mas ontem peguei fogo à cozinha onde a tua mãe estava a cozinhar o nosso jantar. Desculpa. Eu posso explicar.
Quis pintar os rodapés do teu quarto de cor de rosa, exactamente a mesma cor (código NCS S 1015-Y90R) daquele rebordo que divide o teu quarto em dois, mas com tinta de esmalte. É uma cor que vem da paleta "Northern Light", são cores boas para funcionar bem quando o espectro luminoso se desloca para o azul, garantindo cores bonitas e calorosas mesmo em dias cinzentos e... pronto, isto se calhar não interessa. Mas dizia eu, quis pintar os rodapés e pintei, com muito cuidado. Foi a tua mãe que colou as fitas e tudo, a parte mais chata, mas não podia pintar porque gosta demasiado do cheiro do solvente da tinta de esmalte e lemos num site que cheirar solventes é mau para o bebé.
Acabei de pintar e tudo parecia correr bem, mas quando fui lavar o rolinho de esponja no lavatório da cozinha cometi um erro, um erro pequenino. Estou habituado a tintas de água, percebes? Saem com muita facilidade do rolo e das mãos, com água, limpam-se com uma esponja e tudo. Mas qual não é o meu espanto quando a minha mão ficou coberta de tinta rosa pegajosa que não saía nem por nada? E que a tinta se começou a agarrar ao lavatório e à torneira... tentei ser discreto e não assustar a tua mãe que vigiava os tachos.
E peguei numa garrafa de solvente industrial que tinha guardado no armário, uma sobra de quando injectei espuma de poliuretano na caixilharia das janelas isolantes e precisei de limpar as minhas mãos que inadvertidamente entraram em contacto com o produto quando as luvas de latex se colaram e rasgaram.
Pronto, admito que não foi muito boa ideia, mas enchi o lavatório com água e despejei solvente lá para dentro. Estava consciente que aquele solvente é mesmo muito forte, que tem muitos avisos cor de laranja na embalagem e que o senhor da drogaria mo vendeu como se fosse uma arma sem número de série, tive de lhe dizer que acetona não servia, que tinha de ser algo muito mais forte e exibir-lhe os fios de espuma de poliuretano colados às minhas mãos. Mas pensei que diluído em água fosse mais ameno e não me causasse as mesmas reacções na pele que da primeira vez que o usei. E achei que com água quente aquilo limpasse melhor, só que o esquentador está mesmo por cima do lavatório da cozinha. Então e não é que aquilo explodiu e irrompeu em chamas?
Querida Júlia, é que parecia um assador de chouriço gigante, não estás bem a ver... Tenho os antebraços chamuscados, mas só me apercebi disso uma hora depois quando a situação voltou ao normal. O solvente na água continuou a emitir vapores e incendiou-se nas chamas do esquentador. Todo o lavatório parecia um lago de fogo, uma coisa mesmo à Michael Bay! Mas o papá teve muitos reflexos, que é para veres. Abri o armário e tirei de lá uma toalha de mesa e atirei-a para dentro do lavatório para apagar as chamas. Não reparei que a toalha era inflamável também, admito. Nem que a garrafa de solvente estava no balcão ao lado do lavatório e que um pequeno rasto de solvente (mas uma gotas só, juro) foi o suficiente para as chamas chegarem à garrafa, tipo rastilho, para uma segunda explosão ainda mais espectacular que a primeira. Tenho pena de não ter tido a presença de espírito para tirar uma fotografia ou filmar e mostrar-te, mas pronto, paciência.
A tua mãe por esta altura (isto foram segundos) já tinha fugido contigo na barriga para a sala, depois de eu lhe ter dito para desligar o gás do fogão. Gritei-lhe para me trazer um cobertor. E ela trouxe-me um cobertor, mas foi logo trazer aquele cobertor que eu até gosto bastante, o laranja, mas que ela detesta e que está sempre a dizer para eu deitar fora. Mas não discuti com ela, só para veres como o papá coloca a tua vida acima de considerações estéticas ou decorativas. Atirei o cobertor para cima do lavatório e do balcão e fiz tap tap tap com ele por todo lado, porque as chamas estavam mesmo teimosas. O fogo apagou-se, naturalmente e voltei-me para a tua mãe e disse-lhe "vês? está tudo bem, sei o que estou a fazer" porque ela tem um bocado tendência de sofrer dos nervos e exagera. Abrimos as janelas todas, e o exaustor, desligamos gás e interruptores de luz e estive lá uma meia hora com a ventoinha portátil de gravidez da mãe, a ver se dissipava o solvente.
Nisto, não sei como, espalharam-se salpicos do rolo de tinta cor de rosa por toda a cozinha, especialmente no chão que é de pedra preta porosa e que custa mesmo a limpar. A tua mãe diz que fui eu que atirei o rolo ao ar num gesto talvez indicativo de estar assustado, mas não foi, mantive sempre a calma. Também verifiquei a existência de pegadas cor de rosa pelo chão, do lavatório para a janela que abri, sem me lembrar de o ter feito. Suponho que tenha sido eu, sabes? A tua mãe obrigou-me a limpar o chão e tive de o esfregar pelo menos meia hora, com aquela parte verde da esponja.
Foi depois disso, já na casa de banho, um pouco tonto do cheiro a solvente, que dei conta da tinta nos antebraços chamuscados e em madeixas de cabelo pegajosas e coladas, também chamuscadas. Estive outra meia hora a esfregar-me, o que foi bastante incómodo porque os meus braços estavam com um escaldão do passeio de BTT de 45 quilómetros que fiz este fim de semana e o solvente já me tinha queimado parcialmente a pele. A tua mãe bem me avisou: mete protector solar. Mas eu não segui os conselhos da tua mãe e vê só o que sucedeu? Tudo sujo, atraso no jantar, confusões, explosões etc.
Depois da situação regularizada, jantámos na sala. Ainda tentei fazer uma piada sobre a Sónia Brazão e que isto poderia ser bom para a carreira da tua mãe, no sentido de a projectar mediaticamente, mas ela não achou graça. E não tem graça nenhuma, realmente.
Isto explica as ténues pegadas rosa no chão preto da cozinha que provavelmente ainda lá estarão quando conseguires ler este texto. A maior parte saiu (expliquei à tua mãe hoje) e só se vê mesmo com a luz do dia e com um bocado de má vontade. À noite não se vê, mas o chão é meio poroso e não dá mesmo para tirar aquilo.
Bem, só queria que soubesses que está tudo sobre controlo e que estamos perfeitamente preparados para te ter quando nasceres, porque é com a prática e as experiências como esta que percebemos aquilo de que as crianças são capazes se não forem vigiadas. Ainda sugeri à mamã despejar um pouco de solvente no balde da esfregona quando a empregada vier a casa e fugirmos durante umas horas, deixando o número dos bombeiros num post it, em cima do balcão, assim como quem não quer a coisa, mas a tua mãe não concorda e diz que vai meter os produtos industriais inflamáveis longe do alcance do pai e que a próxima compra é uma manta anti-fogos para a cozinha. Preferia usar o tapete da casa de banho, aquele de que não gosto nada e que a tua mãe escolheu, mas pelos vistos há uma "manta anti-fogos" especificamente para estes propósitos.
Bem, só queria que soubesses que está tudo sobre controlo e que estamos perfeitamente preparados para te ter quando nasceres, porque é com a prática e as experiências como esta que percebemos aquilo de que as crianças são capazes se não forem vigiadas. Ainda sugeri à mamã despejar um pouco de solvente no balde da esfregona quando a empregada vier a casa e fugirmos durante umas horas, deixando o número dos bombeiros num post it, em cima do balcão, assim como quem não quer a coisa, mas a tua mãe não concorda e diz que vai meter os produtos industriais inflamáveis longe do alcance do pai e que a próxima compra é uma manta anti-fogos para a cozinha. Preferia usar o tapete da casa de banho, aquele de que não gosto nada e que a tua mãe escolheu, mas pelos vistos há uma "manta anti-fogos" especificamente para estes propósitos.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
Educar o gosto literário do bebé
Comprar livros infantis na Feira do Livro foi uma novidade para mim, pois o único livro do José Luís Peixoto que tenho, foi-me oferecido por um ex-amigo. Comprei os clássicos Vento nos Salgueiros, O Livro da Selva, mas a Plaft explicou-me que ela só entenderá esses livros quando for mais crescida e que devíamos agora comprar coisas mais simples. Tenho medo que a criança me saia de esquerda como a mãe e ainda tentei impingir-lhe um livro do "Pato Donald Trump", mas sem sucesso. Uma das coisas que temos de ter em conta na escolha de um livro infantil, é a capacidade de entendimento da criança. Até um ano de idade, o bebé tem pouco mais capacidade de entendimento que um leitor de José Rodrigues dos Santos. O primeiro livro que decidi oferecer-lhe tem um cão em relevo de peluche, na capa. Hesitei entre esse e o que tinha o gato, uma vez que não tinha qualquer referência crítica sobre estas edições. Após uma breve avaliação, considerei que o livro com o cão na capa era uma obra mais sólida, uma vez que o gato tinha os bigodes a soltarem-se e uma orelha a descoser-se. O cão faz squeeeek quando se aperta, ensinado à criança que os cães não devem ser apertados porque fazem squeeek (?...). Depois, tem a imagem de uma bola de futebol. Segue-se um elefante e depois uma girafa e mais gravuras deste tipo, sem qualquer texto ou nexo, deixando à criança o trabalho de fazer daquilo uma história, como nos romances do António Lobo Antunes, mas com bonecos. A Plaft entusiasmou-se muito com a banca da Kalandraka, especialmente a obra de Arnold Lobel. Comprou o incontornável Sopa de Rato e o agora clássico Histórias de Ratinhos (na época, incompreendido pela crítica). Tentei fazer-lhe ver que esses livros são para crianças de nível João Tordo para cima, mas ela insistiu que precisava mesmo de os ter, mas que não eram para ela, eram para o bebé... claro. Desde Sábado que os lê diariamente, em voz alta, ensaiando os diversos papeis e vozes, reflectindo profundamente sobre o significado e a moral de cada trecho, o que nem sempre é fácil nos livros infantis. A doninha vai fazer uma sopa de rato, mas o rato diz-lhe que tem de temperar a sopa com histórias... É uma excelente ideia, quando perdermos os dois o emprego e tivermos de comer massa todos os dias, vamos testar isso de temperar a comida com histórias, a ver se ela gosta.
Estás farta de comer massa com salsichas, bebé? Mas oh, esta é temperada com uma linda história. Era uma vez um porquinho fofinho que queria ser o rei dos porquinhos. Ia a passear pelo campo e encontrou um prédio grande com chaminés que deitavam fumo e com um letreiro que dizia "Nobre". 'Nobre?' pensou o porquinho, 'eu sou nobre. Deve ser este o meu castelo, vou bater à porta...'
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Querida Júlia,
Escrevo-te uma cartinha de amor. Eu
tenho muitas saudades do meu pai e ele não se exprimia muito bem por
palavras. O amor não se exprime por palavras, mas por actos. Só
percebi isso aos 30 anos porque sou muito teimoso, espero que não
sejas tão teimosa quanto eu. Até agora nós ainda não falámos, só
eu é que falei contigo porque li que tu te habituas ao tom de voz e
depois isso te acalma depois de nasceres. Já me deste uns quantos
pontapés na cara. No outro dia estava a tentar ouvir o teu coração
de passarinho com o ouvido encostado à barriga da mãe porque vi num
documentárioda BBC que era possível ouvir. E tu deste-me um
violento pontapé. Não diria violento, não me magoaste, mas foi
muito assertivo e toda a barriga da mãe chocalhou e vibrou como um
pequeno tambor. Tens uma personalidade forte, isso parece-me
evidente. Eu não sou muito bom a falar e não acho que o meu papel
seja falar, mas sim aguentar os teus pontapés. Vais dar muitos, até
bem tarde. Se fores como eu ou a tua mãe ou uma mistura dos dois,
vais dar pontapés para sempre. Desculpa os genes. Desculpa
confessar-te que não sabemos muito bem, nenhum de nós, o que
estamos a fazer! A ideia de sairmos os dois de casa para o hospital
quando chegar à regra do 511 (contracções de 5 em 5 minutos com a
duração de 1 minuto durante pelo menos 1 hora – eu sou um pai
certificado!) e voltarmos com outra pessoa para casa, é um pouco
absurda, mágica, surreal... Sei que para ti que, quando leres isto,
pintas o céu de rosa e o sol de azul e metes sorrisos em ávores,
tudo parece muito natural, mas olha que para adultos com instrução,
esta coisa de sermos dois e de repente três, é estranha. Saímos de
casa e voltamos contigo! Bem, tu já estás connosco agora, é
verdade, mas percebes o que quero dizer. Claro que até teres idade
para ler isto e perceberes o que aqui está escrito, já te iludimos
o tempo suficiente para acreditares que estamos certificados para te
educar.
Estamos a preparar o teu quarto, já
comprámos móveis, a tua mãe comprou muita coisa pelo OLX e pelo
Custo Justo... Os pais têm de ser espertos, sabes? A vida não está
fácil, mas não é preciso complicar demais. Até tu perceberes o
que é uma “marca”, o que é ser fixe e essas coisas, levas com o
mais barato que houver que te lixas. Baby grows à boca de sino, eu
sei, não é cool, mas tu só começas a fazer memórias lá pelos 4
anos por isso... Parecemos traficantes de droga, a encontrarmo-nos
com pais no parque de estacionamento do IKEA ou do Cascais Shoping e
fazermos a troca de pacotes de fraldas novas, bombas de leite,
carrinhos... Eles abrem a mala do carro, nós inspeccionamos o
produto, damos o dinheiro em mão... juro-te, parece mesmo um negócio
da máfia dos pais a fazer pela vida. Já agora, aproveito para dizer
que a droga é má. A sério. A droga é um “não”. Não, Júlia!
Não!
Isto de ser pai é fácil. É só
dizer-te o que não podes fazer e o que podes fazer e tu obedeces. Tu
és uma menina. Eu acho que com um menino sabia mais o que fazer e
que assim fica tudo do avesso, como no primeiro encontro com a tua
mãe, mas é por isso que estou feliz por seres uma menina. Desculpa
se te parecer um Urso Rezingão. Às vezes tenho medo de que com a
idade, se perca assim a capacidade de brincar e comece a ficar muito
sério, mas aí tu é que tens de me ensinar coisas e de me educar,
obrigado.
Ps:vi num documentário que tu nasces
com muita força nas mãos, um reflexo do tempo em que éramos
macaquinhos e nos tínhamos de segurar ao pelo dos pais para andar de
ramo em ramo às cavalitas deles. Podia dizer-te que já não é
preciso essa força toda nos dedos para agarrar em coisas e que a tua mãe, graças a Deus, não tem pelo que chegue nas costas para que tu te agarres a ela assim, mas faço
questão de que me agarres a mão ou um dedinho com muita força quando nos virmos cá fora, mesmo que berres muito, porque sempre que precisares de mim, eu dou-te a mão e não te largo.
beijos e até já.
L.
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